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quarta-feira, 29 de março de 2023

A verdade

 Refletir sobre a verdade na filosofia é, pois, transcender, de certo modo, as inúmeras pontuações e usos que o termo pode assumir na vida comum e até mesmo na atividade científica. Com efeito, poucos termos podem contar com tamanha e particular apropriação, como o de verdade. É possível que se veja aí a importância e a indispensabilidade do que se esconde nele, para o encaminhamento das relações sociais e humanas, até mesmo para a sobrevivência da espécie. Sem verdade não se vive, seja lá a circunstância em que se está. Embora se possa indefinidamente discutir o que seja verdade nos métodos e descobertas das ciências, é muito certo que ela, ou algo assemelhado, se deseja como resultado, mesmo provisório, do esforço de pesquisa. Ela “decide” inexoravelmente na vida humana. Em Filosofia, ao longo de toda sua história de mais de dois milênios, verdade é palavra-chave dos pontos de vista metafísico e gnosiológico, ambos, aliás, bastante interligados. Pode-se mesmo traçar um arco desde o que os gregos, com Parmênides, entenderam por alétheia até a “salvaguarda do ser”, como se permite exprimir o filósofo Heidegger. O campo de exploração do sentido é muito vasto. Limitamo-nos a lançar um olhar forçosamente breve sobre algumas ocorrências de sentido na modernidade e propor um “passo de volta” ao pensamento de Santo Tomás de Aquino, para, quem sabe, resgatarmos alguma coisa que, proh dolor!, perdeu-se nesse caminho.

Um exemplo notável está aos olhos de todos. A recente crise econômica mundial é o resultado de uma “verdade” de gestão financeira, que se descobriu, apesar de todos os cálculos e projeções, uma ficção ou mentira, que desencadeou por todo o mundo um terremoto de que ainda não conhecemos todas as conseqüências. Que razões teriam presidido a essas formas de vida econômica, política, social, que se mostram hoje tão fragilizadas, líquidas e descartáveis? Elas se enraízam certamente no ethos da Modernidade, construído à base de concepções idealistas da Verdade, cujos nomes nos são bem conhecidos: idealismo-racionalismo, pragmatismo, relativismo, niilismo, devendo-se acrescentar o voluntarismo e a hermenêutica, que também têm sua pretensão de verdade.

Kant não é, certamente, o pai geral de todas essas tendências. Mas é quem “desnaturalizou” com mais radicalidade a antiga e venerável noção da verdade-adequação, oriunda de Aristóteles. Mas talvez devamos recuar até Descartes, para o qual, como é muito sabido, a ordem de fundamentação da filosofia inicia-se na mente, e não na natureza das coisas. Pretende construir seu sistema tendo por base uma verdade absolutamente indubitável: Eu penso, logo sou (Cogito, ergo sum). Ele analisa essa idéia-base em suas características constitutivas, para admitir como verdadeira qualquer idéia que àquela se assemelhe. “As coisas que concebemos clara e distintamente são todas verdadeiras”, vai escrever na quarta parte do Discurso de Método. Na realidade, essa proposição dependerá de outra que afirme (ou postule) a existência de Deus e sua absoluta e essencial veracidade. Vale dizer, que o critério de verdade das proposições, além da verdade do cogito, está suspenso à existência de Deus, que é veraz e não pode nos enganar. Percebe-se que o pensamento cartesiano gira em torno de si mesmo e, de certo modo, se vê obrigado a apelar para algo objetivo e que, entretanto, é sempre subjetivo. Clareza e distinção de idéias são condição ou critério de verdade, mas não são a verdade, e não permitem à consciência sair do seu radical isolamento subjetivo.

Também em Kant, a verdade não tem mais seu fundamento nas coisas, com referência às quais um juízo da inteligência se estabelece na divisão ou composição, mas é uma pura relação imanente da inteligência. Na Lógica, vai definir a verdade formal como a concordância do conhecimento consigo mesmo e na Crítica da Razão Pura, entende a verdade como a concordância do conhecimento com seu objeto, ou, melhor dizendo, o acordo do juízo com as leis imanentes da razão. É sempre verdade que Kant não se afasta da relação gnosiológica essencial entre o sujeito e o objeto-termo, mais ao confundir esse com o conhecimento em si não-contraditório, terá assim uma verdade totalmente imanente ao sujeito .

Se a verdade kantiana é uma correspondência fechada entre o conhecimento e seu objeto, a verdade no pragmatismo, em mais de um aspecto, àquela se liga, não fosse pela supremacia que em ambas se dá à razão prática sobre a teórica

Na filosofia contemporânea, não está ausente a preocupação com a verdade, mas o foco se centra na questão epistemológica, sem o pano de fundo ontológico e ético. São rediscutidas as tendências até aqui esboçadas, mas para se ver o que delas se pode aproveitar, se há algo a aproveitar-se, nos processos e resultados da ciência. Não parece de todo infundada a impressão de que, quando se fala em verdade, está-se falando não tanto em seu conceito, mas em seus critérios ou em suas condições. É o que se pode verificar na sintética exposição de Moser, Mulder e Trout7 . É bem verdade que esses autores privilegiam a tradição anglo-saxônica de pensamento, voltada para os critérios de validação das asserções, tomando se por base a objetividade da experiência. É o caso da discussão levada a efeito por Russell e Moore que entendem a seu modo o realismo e o idealismo8 . Outra vertente, de grande interesse, é a francesa, na linha de Michel Foucault que busca vincular verdade e história, vista essa como “acontecimentalização”, como explica Candiotto.

Tomás de Aquino  tem como cenário ontológico de fundo a realidade que é termo da ação criatural divina e para a qual o conhecimento humano se inclina, com o intuito de apreendê-la e de poder emitir um juízo verdadeiro e adequado a seu respeito. Mas sempre uma apreensão e um juízo aproximado, pois sabe Tomás que a realidade criada tem com o Criador, ou seja, com as idéias arquetípicas desse, uma relação de ser pensada e de ser, que só o Criador conhece. É o limite “negativo” de todo conhecimento humano, a incognoscibilidade última que, entretanto, sustenta a inteligibilidade “quanto a nós”, isto é, que está a nosso alcance. Nosso infinito desejo natural de conhecer, como se exprimira Aristóteles, na primeira linha de sua Metafísica, pode avançar sobre o desconhecido, para iluminá-lo e iluminar-se. Mas uma fronteira de sombras espera-o, desde que ele começa o seu esforço em direção à verdade.

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